Brasil: o país da novela
“A vizinha chinesa, uma senhora de idade, acho que nem português fala. Saiu de casa, mesmo em quarentena. No passeio encontrou um ninho de passarinho. Olha só. Um ninho. Caído da árvore. Ela apanhou do chão. Dentro, você não sabe, um filhote de passarinho moribundo. Acredita? E o que a chinesa fez, hein? Hein? Comeu o bichinho! O coitadinho! Ali mesmo. Mastigou e engoliu. Deus tenha misericórdia da chinesa. Isso é verdade. Eu li no whats do bairro. Foi aqui mesmo. Já vi esta chinesa zanzando por aí. Elegante ela, até. A China vai acabar conosco. Só por Deus.” (relato de uma senhora do bairro)

Somos o país da novela. Temos que aceitar e reparar décadas de injustiças. Superestimamos Pelé, Jobim, a pinga, Mangueira e as super safras de soja. Nosso país é a nação da teledramaturgia, a popular novela.
Resgatemos, Glória, Ivani e Janete. Conhece? São as mães da novela brasileira. A tríade de feiticeiras shakespearianas que previram nossa queda, nosso desorientação pelos leitos turvos das narrativas ralas, pelas entranhas de uma imprensa moribunda, nas risadas compulsórias dos memes compulsivos e nas ferroadas dos bots-formigas inflamados.
Não é a pátria de chuteiras, como disse o mestre dramaturgo. É a pátria de WhatsApp. É a ficção criando nossa fuga possível, em cada telinha na palma de nossa mão, como uma mini-janela para um jardim de papel machê. Nossa novela particular. O fracionamento da realidade.

Deixando a literatura de lado, a questão é que passamos a escolher a realidade que desejamos viver, amparada pelas espaços de interação digital e nossos clusters de afinidades . Não estamos dispostos a quebrar isso. Nossa novela particular. Chineses vencedores de uma guerra bacteriológica com a sua tropa de Coronas; a terra plana; a geografia mutante. Somos médicos, professores, sociólogos, psicólogos, gurus, comediantes e filósofos de faz-de-conta.
Imprensa, publishers e marcas gastam neurônios e estalecas para se infiltrarem dentro destes clusters (locais “seguros”). Conseguem curtidas, conversões e os influenciadores realmente influenciam (sejam os pops ou os de nicho). Mas o muro não é quebrado. A bolha é de cimento, não de cristal. Você pode até ser a fonte, o plot, mas o enredo, quem cria é o outro e o final pode não ser aquele que você deseja, esperado ou até mesmo lógico.
